Esta manhã resolvi arriscar a levar o Tiago à escola sem o carrinho. Sabia que a possibilidade de me arrepender era muito grande mas estava na altura de tentar, uma vez que o Tiago já aguenta andar o caminho todo sem muito esforço.
Fiquei espantada com a forma como ele colaborou. Não fez birras, foi sempre a pé de mão dada e chegou à escola bastante satisfeito. Ficou ainda mais feliz quando viu que os colegas estavam no recreio, que ele passou a adorar (nota mental: comprar uma casa com terraço). Esperou que lhe desse op chapéu, porque já sabe que não se vai lá para fora sem chapéu, e depois foi a correr ter com os outros meninos.
O caminho de volta para casa já não foi tão pacàfico.
O Pedro teve aparentemente algumas pessoas a comentar o nosso parenting style baseando-se nos breves comentários que deixamos por aqui sobre as birras do Tiago, acusando-o de ser demasiado permissivo e fazer as vontades todas ao filho ‘porque de outra forma ele não fazia birras’. Eu não sinto grande necessidade de justificar as nossas escolhas na educação do nosso filho mas lembro-me como pensava antes de ter um e sei que é muito fácil pensar que quando uma criança faz uma birra a culpa só pode ser dos pais que lhe fazem as vontadinhas todas. Infelizmente, tenho aprendido que não é assim que funciona, pelo menos aos dois anos. É possível que aos cinco ou seis isso seja mais verdade, mas como ainda não cheguei lá não estou em posição de julgar.
Aquilo que sei é isto: eles chegam aos dois anos, ou perto disso, e apercebem-se que têm o poder de mudar certas coisas e talvez até de controlar algumas. Apercebem-se que os pais lhes dão atenção quando choram e começam a faze-lo, não porque se magoaram ou têm fome mas porque causa uma reacção. Daà para a frente começam a tornar-se cada vez maiores peritos em conseguir provocar os pais para testar os limites da sua paciencia. O grau depende obviamente da personalidade da criança – teimosia, necessidade de atenção, capacidade de se magoar propositadamente para o choro ser mais natural (sim, é verdade – se não ligamos à choramingice o Tiago ele é capaz de bater propositadamente com a cabeça contra a parede ou no chão para ter a atenção que quer), etc,
Infelizmente, não é por ignorar as birras duas ou três vezes que elas param. Tenho a impressão que isto vai ser um processo de aprendizagem bastante longo até o Tiago perceber que este não é o melhor caminho para ter o que quer.
O inferno que foi o caminho para casa hoje mostra isso mesmo.
Fomos ao jardim infantil como é costume e ele esteve a brincar. A certa altura começou a dar a volta ao escorrega e sem qualquer explicação atirou-se para o chão a fazer beicinho e olhou para mim de lado para ter a certeza que eu tinha visto. Eu não liguei e deixei-o estar. Passado um bocado, como ele não saàa dali, fui ter com ele para lhe por o chapéu na cabeça porque estava ao sol. Ele recusou o chapéu por isso agarrei nele e sentei-o à sombra. Fui-me embora outra vez. Ele não gostou de ser transportado dois metros e desatou a berrar. Não lhe liguei mais e ele acabou por se fartar, levantou-se e veio ter comigo de braços abertos. Baixei-me e tentei pegar-lhe mas ele começou a abanar os braços para me afastar. Disse-lhe que assim não podia fazer nada por ele e voltei a ignorar.
Passado um bocado ele continuou a brincar mas entrou no modo de responder não a tudo o que eu dizia. Pareceu-me que estava cansado e se queria ir embora, mas o Tiago quer e não quer uma coisa ao mesmo tempo e mesmo que tente dar-lhe aquilo que acho que ele quer ele diz que não e recusa.
Por exemplo, pergunto se quer um copo de água e ele diz que não. Encho o copo e tento entregar-lhe, ele empurra com a mão. Se bebo eu o copo ou tentolevá-lo embora começa a gritar irritado. Pouso o copo na mesa e passados uns segundos ele pega no copo e bebe-o de uma vez. Não lhe nego água mas se tem este comportamento com brinquedos guardo o brinquedo e aguento a gritaria mas ainda não aprendeu a mudar de estratégia.
Quando achei que já chegava de não, peguei no Tiago ao colo e comecei a voltar para casa. Ele desatou a gritar. Expliquei-lhe que tinhamos de ir para casa e se não queria colo tinha de andar a pé. Foi para o chão e começou a andar.
Quando chegámos a uma zona de sol tentei por-lhe o chapéu. Começou a dança. Eu ponho, ele tira. Ao fim de umas quantas tentativas deixei-o andar mais um bocado antes de tentar outra vez para ver se passava a teimosia. Voltou a tirar o chapéu. Chegou o ponto em que não podia continuar a deixá-lo ganhar, até porque tinhamos uma longa caminhada ao sol pela frente. Entrámos num concurso de teimosos. Eu punha o chapéu e ele sacudia. Fizemos isto tantas vezes que eu já estava com vontade de rir. Quando me fartei tive de lhe agarrar nos dois braços, por-lhe o chapéu e não largar os braços até ele começar a estar mais incomodado por estar agarrado do que por ter o chapéu.
Resolvida a questão do chapéu o Tiago passou à fase seguinte: começou a parar, a puxar na direcção contrária ou a querer atirar-se para o chão. Cada vez que fazia isso eu pegava nele debaixo de um braço e continuava a andar. Ele não gostou muito e começou a berrar. Disse-lhe novamente que ou ia assim ou ia a andar e voltava a po-lo no chão. Ele andava mais um bocadinho, sempre a choramingar, e depois fazia o mesmo.
Acabou por andar o resto do caminho até a casa. Pelo caminho foi informado dos previlégios que ia perdendo: tv, o boneco dele e alguns brinquedos por ordem de preferencia.
Quando chegámos ao prédio atirou-se para o chão e começou a berrar (muito mais giro porque faz eco). Tive de agarrar nele e colocá-lo dentro do elevgador e depois tirá-lo do elevador e traze-lo para casa, onde ficou a chorar no chão do hall enquanto eu fui para a varanda apanhar roupa da corda e respirar fundo.
No total foram 20 minutos e amanhã serão outros 20. Não ganhou nada com a birra e perdeu algumas das coisas que gosta. Mas acham que aprendeu alguma coisa com isso? Claro que não.
Acho que estas situações são brutais, tanto para mim como para ele, mas infelizmente são necessárias. Ele precisa de saber que não pode fazer o que quer sem consequencias e eu preciso de controlar a minha crescente vontade de lhe dar um tareão.
Por regra não bato no Tiago porque acho que isso seria uma falha da minha parte por não conseguir resolver a situação de outra forma, tento não gritar com ele – à s vezes não o consigo evitar porque sempre fui um bocado impulsiva mas estou bastante melhor – mas não o deixo fazer tudo o que quer. Deixo fazer tudo o que seja inofensivo mas as regras são para cumprir. Há umas semanas não queria lavar as mãos quando chegava a casa. Tinha que lhe pegar, levá-lo à casa de banho sempre a berrar e lavar-lhe as mãos à força. Agora já vai sozinho. Custa e é preciso muita paciencia mas lá acaba por perceber como as coisas funcionam. Só que não é de um dia para o outro.
Desejo boa sorte a todos os que acham que os seus filhos nunca irão fazer birras porque vão ser os melhores pais do mundo.