Os jornais e revistas começaram aos poucos a anunciar que aderiram à forma de escrever definida pelo novo acordo ortográfico. Compreendo que assim seja porque, uma vez que é oficialmente definido que se passa a ensinar a escrever assim, tem de começar a existir material escrito dessa forma e os jornais, revistas e livros sentem-se na obrigação de dar o exemplo e tentar habituar as pessoas ao novo português.
Compreendo a ideia da simplificação e no geral penso que não terá um impacto assim tão grande porque não são assim tantas as palavras que sofrem alteração e algumas têm dupla grafia, dando-nos opção. No entanto descobri que tenho um lado estranhamente patriótico que se revolta ligeiramente com a ideia de tal alteração ao nosso português ter sido feita como forma de nos aproximar da grafia dos brasileiros.
Que diferença é que faz escrever de forma diferente se se percebe à mesma? É mais facil haver confusão nos casos em que a mesma palavra tem significados diferentes, como por exemplo, a (para nós) inocente palavra ‘rapariga’ no Brasil significar prostituta – isso sim, pode dar grandes confusões. Agora cacto passar a cato, na minha opinião, não ganha nada a não ser fazer-nos tropeçar ocasionalmente no texto que estamos a ler para perceber o que raio é aquela palavra estranha.
Os ingleses e americanos também falam a mesma lingua e escrevem as mesmas palavras de formas diferentes e não os estou a ver a abdicar da sua identidade escrita só para a grafia ser ‘mais fácil’. Sim, de facto passar a escrever ‘thru’ em vez de ‘through’ é mais simples mas por exemplo a versão americana de ‘storey’ é ‘story’ e isso é uma grande confusão porque passa a ser uma mesma palavra com dois significados completamente distintos.
Um exemplo semelhante no ‘novo’ português é ‘acto’ passar a ‘ato’. Mas querem atar o quê exactamente?
Este tipo de descaracterização das palavras torna-se algo confusa para os adultos porque nós não lemos um texto letra a letra nem analisamos uma palavra de cada vez como as crianças fazem quando estão a aprender. Nós olhamos para uma mancha de texto e lemos um bloco de cada vez.
Nem toda a gente será como eu mas conheço mais algumas pessoas que também têm dificuldade em passar à frente o ocasional erro ortográfico óbvio que encontram num livro que estejam a ler. Apetece logo ir buscar uma caneta e corrigir o erro antes de passar à frente. É uma daquelas pequenas irritações que nos tira momentaneamente da história que estavamos a seguir e nos interrompe a velocidade de leitura. Aposto que muitas das pessoas que lêem este site sofrem desse mesmo problema e gostavam de poder editar muitos dos meus posts, porque geralmente escrevo à pressa e não volto a ler o texto para corrigir trocas e faltas de letras. Sei que há muitos erros por aà fora e de vez em quando vou corrigir um post, mas o tempo nunca dá para tudo, e como não tenho dicionário integrado preciso de muita atenção para não deixar escapar nada.
Isto para dizer que tenho a sensação que graças ao acordo ortográfico vamos passar a interromper o nosso ritmo de leitura muito mais, porque a nova grafia vai parecer precisamente um erro ortográfico Nós queremos simplesmente mergulhar na história de um livro e afinal acabamos por ter de parar constantemente, mesmo que seja apenas por uma fracção de segundo, para tentar perceber o que raio é um ator, um trator ou o que é que eles estão a fazer quando leem. Passámos anos a aprender a escrever correctamente, aprendemos a ler depressa porque reconhecemos as palavras de relance em vez de as ler letra a letra, e agora de repente vamos andar a tropeçar em palavras que não reconhecemos de imediato.
Não sei se nos próximos tempos vou conseguir ler livros em português. Podem estragar-me a lingua mas não me podem obrigar a aderir. A outra hipotese é começar a ler com um marcador vermelho atrás da orelha e ir corrigindo todos os erros que for encontrando.